Para amar-te

Para amar-te
queria fazer uma ponte de palavras
que fosse ao mesmo tempo
teus pés e meu coração,
fazer uma casa de palavras
e uma cama de palavras
para beber o teu cheiro
como quem toca a luz da memória.

Por isso tomo emprestadas as promessas dos amantes ferozes
cuja lenda reverbera nas letras do seu nome.
Furto palavras de Rimbaud,
que amou com violência se embriagando
bajo el estupor de las estrellas,
peço metáforas a Safo para dançar
nas ruas desertas
e não esquecer
da cintilante sede da carne,
tomo luas e flores dos poemas de Lorca
e corpos dos versos de Cernuda,
gritando Evohé! junto às bacantes
de uma idade anterior à culpa;
copio delicadamente reflexos
                de Alejandra
                               de Olga e de Anna
                                               de Wislawa e de Cristina 
e com essas matérias
cruas
alimento minha fome, para dizer:

para te amar, vou fazer um encontro de palavras
como um pássaro que canta frente a um espelho:
não sabe
                que o outro lado não existe,
mas não se importa.

Rezo aos amantes enlouquecidos
que se irmanam comigo
na ardente espera do desejo.



-2014-




Grafitti en Rio de Janeiro

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